Coração em cima da mesa.

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Na partida não há choro, nem adeus,
Coração deixado em cima da mesa,
Como a pertences divididos na hora da separação,
Fui erro teu.

Passam-se dias dentro de um poço de vidro,
Noites entorpecentes a queimar como azia,
É clara a revolta dos destinos,
É claro o sorriso hepático da esperança.

Alguém está rindo por mim,
Cantarolando em teus pensamentos,
Surrupiando tentativas,
Velando por nós dois.

Não há quimera de perdão sequer,
Um resquício de uma vontade ensaiada,
Tua sentença é minha,
Minha impetuosidade é tua.

Neste processo de abstinência,
Teus cabelos enroscam em minha barba,
Teu perfume encontro a passear no corredor,
O andar da moça do 10º andar é teu.

Há um limite em meus pensamentos,
Tem um bloqueio de suspirações malogradas,
Tem uma fina relutância de teu orgulho de mulher,
Eu sei que é, eu sei…

Sempre amanheço no sofá da sala,
Ouço os pássaros em revoada,
Conto mais uma vez os azulejos da cozinha,
Levanto e bato a porta.

Esqueço as chaves e o coração despedaçado em cima da mesa.

Tatiano Maviton

Alma Peregrina

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É tanto amor…
Chega a queimar o peito em desespero,
É aquele hálito do deserto
Na alma a crepitar.

A morte que vigia.
O corpo levemente áspero.
Copo e corpo estilhaços.
O vento a passear.

Alma peregrina me iludiu,
Roubou o que tanto eu guardava,
Agora passa ao longe,
Nem pra me acenar…

Aonde vais minh’alma?
Aonde vais ao longe!
Alma peregrina,
Perto podes ficar.

É tanto amor,
É tanto amor,
Que chega fora do corpo habitar.

É tanto amor,
É tanto amor,
Que a alma peregrina,
Riste, triste, viste
Vai ao longe te buscar.

É tanto amor,
E que nasce sem ter
Seio para o alimentar
Cresce sem esteio,
Sem alimento para o saciar.

É tanto amor
Nasce de fonte a secar,
Esperança que se esquece
Menino problema sozinho cresce,
Amor perdido a germinar.

É tanto amor
Da alma que se apossa,
É brandura que goteia
Rio sem nascente,
Sem prumo, sem curso,
destino…
Nem aonde vai desembocar.

É tanto amor
Que se alojou no estreito,
Dentro do peito de um jeito,
Não há como tirar.

Foi um tiro sem erro, sem compaixão.
E depois só me deixou essa graça triste,
E um desastre em minha mão,
A queda que tanto tive a sonhar.

Na ordem transversa das coisas

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A manhã atordoa a noite.

Enquanto a lua antes nasce do sol,
Ao cair da tarde o homem da terra trata,
À manhã, acalentam-se os catres.
Os cimos escondem a brisa dos arvoredos.

Sem.
O teu amor é um roseiral de espinhos
Afinados e atentos,
A água evita a sede,
A fome regurgita o que sacia,
No mar, velho lobo adentra-se no nada…
Turva-se no cineral de um pobre dia.

Na ordem transversa das coisas,
O que nasceria, morre.
Do que se viveria, parte.
O que se teria, sofre.
Ao que sozinho ama… sorte.

Mãos síncopes,
Tremulam incontentes,
É próprio que se fecham,
Abraçando a ardil ausência.

O tempo se demora,
O revés de um salto,
Os teus lábios,
Enquanto a flor que nata é bela,
Murcha, entre o brotar e a secura.

Assim é o amor que vive a te sombrear,
Galgando teus passos em circunlóquios,
E que dirá a ausência
Às adjacentes manhãs do teu jasmim,
Oh bela! Oh bela que me destrata e oculta!

Sem ti tudo é tão real e lerdo,
Como o suor de um sonho distorcido,
Nobreza sem linho,
Algodoal purpúreo.

Sinceramente?
Viver sem ti, o teu amor sem me nutrir,
São os olhos a verem-se somente a si mesmos,
A solidão a sentir o castigo da própria voz.

Poet.

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Poeta sente dor pungente, volúpia ardente e trata o amor no vocativo.
põe-se na torre a sonhar, vendo uma lua no céu e outra lua no mar.